ALÉM DO GÊNERO - A organização social indígena e o olhar colonial incapaz de compreendê-la
Quando os portugueses chegaram ao Brasil no século XVI, encontraram sociedades que funcionavam de maneira radicalmente diferente da Europa patriarcal. Mas há um detalhe fundamental que precisa ser compreendido: os povos indígenas brasileiros não operavam com o sistema binário de gênero como conhecemos. Eles não tinham as categorias rígidas e hierarquizadas "homem/mulher" que estruturam o patriarcado.
E os colonizadores europeus, aprisionados em suas próprias representações de mundo, foram completamente incapazes de enxergar e compreender essa realidade.
O QUE OS CRONISTAS VIRAM (E NÃO CONSEGUIRAM ENTENDER)
Os relatos dos cronistas portugueses e franceses do século XVI estão cheios de contradições, espanto e tentativas desesperadas de encaixar o que viam em categorias que fizessem sentido para eles. Eles descreviam minuciosamente os costumes indígenas, mas suas palavras traem constantemente a impossibilidade de compreender o que testemunhavam.
Gandavo, cronista português, descreve algo que claramente o perturbou profundamente:
"Algumas indias ha que tambem entre elles determinam de ser castas, as quaes nam conhecem homem algum de nenhuma qualidade, nem o consetirão ainda que isso as matem. Estas deixam todo exercício de mulheres e imitam os homens e seguem seus ofícios, como se nam fossem femeas. Trazem os cabelos cortados da mesma maneira que os machos, e vão à guerra com seus arcos e frechas, e à caça perseverando sempre na companhia dos homens e cada uma tem mulher que a serve, com quem diz he casada, e assi se comunicam e conversam como marido e mulher."
Observe a linguagem: Gandavo tenta descrever o que vê usando suas categorias ("determinam ser castas", "imitam os homens", "como se não fossem fêmeas"). Ele está forçando o que observa para dentro de um sistema binário que ele carrega na cabeça. Mas o que ele descreve é, na verdade, algo muito mais complexo e fluido.
O QUE REALMENTE EXISTIA: PARA ALÉM DAS CATEGORIAS
Os povos indígenas brasileiros não tinham um sistema de gênero como o patriarcal europeu. O que havia era:
- Pessoas com diferentes corpos que desempenhavam papéis sociais variados
- Funções e atividades que não estavam rigidamente amarradas ao sexo biológico
- Liberdade de escolha sobre como viver, que papéis assumir, com quem se relacionar
- Ausência de hierarquia entre esses diferentes papéis e funções
Uma pessoa nascida com vulva podia assumir papéis que os europeus consideravam "masculinos", como: guerrear, caçar, ter parceiras sexuais do mesmo sexo, e era aceita e respeitada pela comunidade. Uma pessoa nascida com pênis podia assumir papéis que os europeus viam como "femininos", como: tecer, cuidar, ter parceiros sexuais do mesmo sexo, sem que isso implicasse em desvalorização ou exclusão.
Mas eles não pensavam nisso como "trocar de gênero" ou "ser do gênero oposto". Essas são categorias que não existiam em sua organização social. Simplesmente existiam pessoas, com seus corpos, vivendo de diferentes maneiras, todas válidas e respeitadas.
A IMPOSSIBILIDADE EUROPEIA DE COMPREENDER
Para os colonizadores portugueses, educados em séculos de cristianismo patriarcal, isso era incompreensível. Sua visão de mundo estava fundamentada em categorias binárias rígidas e hierarquizadas:
- Homem/Mulher
- Superior/Inferior
- Ativo/Passivo
- Forte/Fraco
- Dominante/Dominado
Como disse Andrea Dworkin: "O sistema baseado neste modelo polar da existência é absolutamente real; mas o modelo ele próprio não é verdadeiro." Para os europeus, esse modelo polar era a realidade, a única forma possível de organizar o mundo humano.
Confrontados com uma sociedade que não operava nesses termos, os cronistas reagiram com uma mistura de fascínio e horror. Eles viam o que descreviam como bizarro, maravilhoso, impossível, antinatural.
Gabriel Soares de Souza e Pero Magalhães Gandavo chegaram a criar uma "explicação" linguística absurda: como os indígenas não tinham as letras F, L e R em sua língua, isso significaria que não tinham Fé, Lei nem Rei. Ou seja, para eles, era mais fácil acreditar em uma teoria linguística fantasiosa do que aceitar que existiam sociedades organizadas de forma radicalmente diferente da europeia.
A LINGUAGEM COMO PRISÃO
A própria linguagem dos cronistas os aprisionava. Quando Gandavo descreve pessoas que "deixam todo exercício de mulheres e imitam os homens", ele está impondo categorias que não existiam originalmente.
Ele precisa dizer "mulheres" e "homens" porque são as únicas palavras que tem. Mas ao usá-las, ele já está distorcendo a realidade que tenta descrever. É como tentar desenhar uma esfera usando apenas linhas retas, a ferramenta que você tem não é adequada para representar o que você vê.
Os europeus também não tinham vocabulário para descrever relações entre pessoas do mesmo sexo que não fossem vistas como pecado, doença ou perversão. Gabriel Soares de Souza expressa indignação:
"[...] são muito afeiçoados ao pecado nefando, entre os quais se não têm por afronta; e o que serve de macho, se tem por valente e contam esta bestialidade como proeza [...]"
Observe: ele precisa chamar de "pecado", "bestialidade", "afronta", porque não consegue conceber que essas práticas simplesmente eram normais naquela sociedade. Não havia nada de extraordinário, patológico ou vergonhoso nelas. Mas o europeu não tinha nem palavras nem conceitos para expressar essa normalidade.
AS MULHERES INDÍGENAS: LIVRES E PODEROSAS
Dentro dessa organização social fluida, as pessoas que os europeus insistiam em chamar de "mulheres" tinham uma liberdade e um poder que escandalizavam os colonizadores.
Elas plantavam, colhiam, produziam bebidas, teciam, faziam cerâmica, pintavam corpos, eram pajés e profetas, guerreavam quando queriam, escolhiam livremente seus parceiros sexuais, mudavam de parceiro quando desejavam, tinham autonomia econômica completa.
Claude d'Abeville, cronista francês, registra espantado que os homens indígenas não tinham autoridade sobre as mulheres. Esse é um ponto crucial: não havia a estrutura de dominação masculina que definia (e define) o patriarcado.
André Thévet escreve, claramente perturbado:
"[...] este povo é muito luxurioso, carnal e mais do que brutal, as mulheres especialmente, pois elas procuram e praticam todos os meios para atrair os homens ao ato."
Para um europeu do século XVI, mulheres que expressavam desejo sexual ativamente e buscavam prazer eram "luxuriosas", "carnais", "brutais". Porque em sua sociedade, as mulheres deveriam ser passivas, recatadas, controladas pelos homens. A liberdade sexual feminina era impensável. Logo, quando a viam, só podiam interpretá-la como depravação.
A AUTONOMIA RADICAL
Hans Staden, que viveu dois anos como prisioneiro entre os Tupinambás, descreve aspectos da vida social que revelam uma autonomia feminina inimaginável para os europeus:
- As mulheres podiam libertar prisioneiros de guerra se assim decidissem, e a tribo aceitava essa decisão
- Se uma mulher escolhesse fugir com um prisioneiro, ninguém os perseguia
- As mulheres detinham o conhecimento das bebidas rituais, das medicinas, da agricultura
- Eram consultadas nas decisões importantes
- Tinham suas próprias roças e autonomia econômica completa
Mas observe algo fundamental: isso não era "matriarcado" no sentido de uma dominação feminina espelhando a dominação masculina do patriarcado. Era uma organização social sem dominação de gênero, porque não havia propriamente um sistema de gênero como o que conhecemos.
OS PRINCIPAIS E O PODER (OU A AUSÊNCIA DELE)
Os cronistas ficavam confusos tentando identificar "quem mandava" nas aldeias. Eles falam de um "Principal", que seria um chefe em tempos de guerra, mas logo admitem que ele não tinha autoridade real sobre ninguém.
Gabriel Soares de Souza escreve:
"[...]Em cada aldeia dos tupinambás há um principal a que seguem somente na guerra onde lhe dão alguma obediência, pela confiança que tem em seu esforço e experiência, que em tempo de paz cada um faz o que o obriga seu apetite." [...]"
Ou seja: não havia chefe. Não havia hierarquia permanente. Não havia estrutura de comando e obediência. Para europeus acostumados com reis, nobres, clero, uma rígida hierarquia social, isso era incompreensível.
E os verdadeiros detentores de autoridade espiritual e social (os pajés) podiam ser tanto homens quanto mulheres. Hans Staden confirma a existência de mulheres pajés e profetas. Gandavo indica o respeito que todos demonstravam pelas opiniões e conselhos das mulheres mais velhas.
A VIDA COTIDIANA E A INVERSÃO DE EXPECTATIVAS
Nas descrições do cotidiano, os cronistas revelam, sem perceber, o quanto suas expectativas eram constantemente frustradas.
Thévet dedica três páginas inteiras descrevendo no masculino tudo sobre plantio e colheita. Depois acrescenta, quase como uma nota de rodapé:
"Todo este negócio de raízes é deixado às mulheres, estimando-se que não é ocupação adequada aos homens."
Observe a estratégia retórica: ele primeiro descreve tudo como se fosse atividade masculina (usa três páginas para isso), depois admite que é trabalho das mulheres, mas imediatamente desvaloriza essa informação dizendo que "não é ocupação adequada aos homens".
Mas há outra interpretação possível, que ele não consegue conceber: talvez os homens não fossem dignos de exercer essas funções essenciais. Talvez a agricultura, base da sobrevivência social, estivesse nas mãos das mulheres porque elas eram consideradas mais capazes, mais importantes, mais centrais na vida comunitária.
Claude d'Abeville admite, em um momento raro de honestidade:
"[...] os homens não pensam senão em seus discursos e suas distrações."
Os homens dependiam completamente das mulheres para sua sobrevivência. Mas os cronistas não conseguem articular isso como uma estrutura de poder, porque em sua visão de mundo, o poder deve estar com os homens. Quando não está, eles ficam confusos e tentam minimizar ou reinterpretar o que veem.
AS AMAZONAS: O TERROR DO IMPOSSÍVEL
As descrições das "Amazonas" (mulheres guerreiras que viviam sem homens) revelam o terror europeu diante da autonomia feminina radical.
Thévet e outros cronistas descrevem grupos de mulheres guerreiras que viviam independentemente, caçavam, pescavam, guerreavam, matavam seus filhos homens e criavam apenas as filhas. Gabriel Soares de Souza menciona mulheres que tinham guerra contra outros povos e eram extremamente temidas.
Para os europeus, isso era simultaneamente fascinante e aterrorizante. Mulheres que não precisavam de homens, que eram fortes, independentes, guerreiras, isso não podia existir. Era contrário à natureza, à ordem divina, à própria essência do que significava ser mulher.
Então fizeram duas coisas: primeiro, vincularam essas mulheres às Amazonas gregas, relegando-as ao reino do mito. Segundo, quando não podiam negar sua existência, inventavam explicações que mantivessem a ordem patriarcal intacta.
Condamine, já no século XVIII, escreve:
"[...] se algum dia houve amazonas no mundo, é na América, onde a vida errante das mulheres que seguiam seus maridos à guerra [...]fez-lhes nascer a idéia e forneceu-lhes ocasiões frequentes de escapar ao jugo de seus tiranos, buscando criar um lugar onde elas pudessem viver de forma independente[...]"
Veja a operação ideológica: ele não pode admitir que mulheres simplesmente escolhiam viver entre si, organizadas autonomamente. Então inventa uma narrativa de fuga da "tirania" dos homens, assim preservando a ideia de que o normal seria a dominação masculina, e as Amazonas seriam uma anomalia, uma reação excepcional.
A HISTORIOGRAFIA MODERNA: PERPETUANDO A CEGUEIRA
O mais trágico é que a historiografia brasileira do século XX perpetuou essa incapacidade de compreensão. Quando historiadores modernos leem os cronistas, eles repetem os mesmos erros, forçando aquelas sociedades para dentro das categorias binárias patriarcais.
Gilberto Freyre, autor extremamente influente (traduzido para mais de 20 línguas), escreve com uma mistura de racismo e sexismo que é difícil de acreditar:
"Pois hoje pode-se afirmar a relativa fraqueza da sexualidade do selvagem americano. Pelo menos do homem - a vida mais sedentária e mais regular da mulher dotavam-na de uma sexualidade mais forte que a do macho, o que explica a excitação de muitas dentre elas face aos brancos[...] Sabe-se com efeito que os órgãos genitais dos primitivos são em geral menos desenvolvidos que os dos civilizados."
Esse tipo de "análise" diz muito mais sobre Freyre e seu racismo científico do século XX do que sobre os povos indígenas. Ele precisa explicar a liberdade sexual das mulheres indígenas como "excitação" diante dos "civilizados" brancos, preservando assim a supremacia branca e masculina.
Sobre arte e criatividade, o mesmo autor afirma:
"Mesmo a magia e a arte, se não são coisas de mulher, desenvolvem-se pela via do homem efeminado e bissexual, que prefere, à vida de movimento e batalha do macho, a vida regular e doméstica da mulher."
Mesmo quando os cronistas descrevem claramente que eram as mulheres que dominavam a tecelagem, a olaria, a pintura corporal (artes consideradas admiráveis) Freyre prefere atribuir essas habilidades a "homens efeminados". A criatividade deve estar na esfera masculina, não importa o que as evidências digam.
FLORESTAN FERNANDES E A PATOLOGIZAÇÃO
Florestan Fernandes, sociólogo respeitadíssimo, professor da USP e da Universidade de Toronto, ao analisar os Tupinambás no século XX, demonstra a mesma incapacidade sobre as pessoas que Gandavo descreve escolhendo viver de forma diferente do que se esperaria de seu sexo biológico, Fernandes escreve:
"Segundo esta fonte as mulheres tríbades assumiam as atitudes culturalmente definidas como masculinas[...] Formalmente, porém, parece que este era simples recurso para atribuir status às mulheres que constituíam desvios psicológicos[...] esses desvios eram pouco frequentes e em algumas situações pelo menos, de acordo com as informações de Gandavo, a sociedade resolvia o problema eliminando as mulheres tríbades."
Observe as operações ideológicas:
- Usa o termo "tríbades" (termo médico patologizante que mal existia no vocabulário da época)
- Chama de "desvios psicológicos"
- Afirma que a sociedade "eliminava" essas pessoas - algo que não aparece em lugar nenhum em Gandavo
Fernandes está inventando uma perseguição que nunca existiu porque ele não consegue conceber que aquela sociedade simplesmente aceitava essas pessoas normalmente. Sua ideologia o força a projetar patologia e violência onde havia apenas diversidade e aceitação.
Sobre relações entre homens, ele escreve:
"Parece-me que as práticas sodomíticas dos Tupinambás devem ser encaradas em têrmos dessas dificuldades na obtenção de parceiras sexuais."
Novamente: não pode ser simplesmente normal. Deve haver uma "explicação", falta de mulheres disponíveis. Como se relações entre pessoas do mesmo sexo fossem sempre segunda opção, nunca uma escolha genuína.
A OPERAÇÃO DO APAGAMENTO
O que vemos ao longo dos séculos é uma operação sistemática de apagamento e distorção. Os cronistas do século XVI, aprisionados em suas categorias mentais, tentam descrever o que veem mas não conseguem realmente compreender. A historiografia posterior pega essas descrições já distorcidas e as distorce ainda mais, encaixando-as definitivamente no modelo patriarcal binário.
O resultado é que uma organização social radicalmente diferente (sem sistema de gênero binário, sem hierarquia entre os sexos, com autonomia e liberdade sexual para todos) é transformada retroativamente em mais um exemplo de "sociedade patriarcal primitiva".
Como disse Gerda Lerner: "Homens e mulheres vivem em um palco onde atuam papéis igualmente importantes. Mas o cenário foi idealizado, definido e pintado por homens."
No caso da história indígena brasileira, não só o cenário foi pintado por homens europeus - o próprio palco foi reconstruído para caber nas categorias patriarcais. A peça original, radicalmente diferente, foi reescrita para se parecer com todas as outras.
POR QUE ISSO IMPORTA?
Compreender essa história é fundamental por várias razões:
1. Desnaturaliza o sistema de gênero patriarcal
Se existiram (e existem) sociedades organizadas de forma completamente diferente, isso prova que o sistema binário hierarquizado de gênero não é natural, não é universal, não é inevitável. Como disse Gerda Lerner: "Se o patriarcado é histórico - se teve início na história - ele pode ser destruído por um processo histórico."
2. Expõe a violência epistêmica da colonização
A colonização não foi apenas material - foi também epistêmica. Os europeus destruíram não apenas os corpos indígenas, mas suas formas de conhecimento, suas organizações sociais, suas maneiras de entender o mundo. E continuam destruindo através da historiografia que distorce e apaga suas realidades.
3. Revela os limites da linguagem patriarcal
Mesmo hoje, quando tentamos descrever essas sociedades, esbarramos nos limites de nossa própria linguagem. Falamos em "escolha de gênero", "homossexualidade", "mulheres poderosas" - mas todas essas são categorias que já carregam pressupostos patriarcais. Como descrever algo que existe fora dessas categorias?
4. Mostra que a "luta dos sexos" não é eterna nem universal
Um dos pilares ideológicos do patriarcado é a afirmação de que sempre houve, em todos os lugares, uma "guerra entre os sexos", uma dominação masculina, uma hierarquia "natural". A existência de sociedades indígenas brasileiras onde isso não acontecia destrói esse argumento.
5. Amplia nosso horizonte de possibilidades
Como disse Andrea Dworkin: "Eu acredito que a liberdade para as mulheres deve começar no repúdio ao nosso próprio masoquismo." Mas como podemos repudiar algo que nos dizem ser natural, eterno, universal?
Conhecer sociedades que funcionavam de outra forma nos mostra que é possível. Não precisamos apenas reformar o sistema patriarcal - podemos imaginar (e lutar por) algo radicalmente diferente.
CONCLUSÃO: A HISTÓRIA QUE PRECISA SER REESCRITA
Os europeus chegaram ao Brasil e encontraram sociedades que funcionavam de maneiras que eles não conseguiam compreender. Em vez de questionar suas próprias categorias, em vez de expandir sua visão de mundo, eles destruíram essas sociedades e reescreveram sua história para que se encaixasse nas narrativas patriarcais.
A historiografia perpetuou essa violência epistêmica. Mesmo lendo os mesmos cronistas, historiadores do século XX continuaram vendo apenas o que suas categorias mentais permitiam ver: patriarcado, dominação masculina, "naturalidade" da hierarquia de gênero.
Uma história no feminino, especialmente uma história feminista radical, precisa fazer o trabalho de desenterrar essas realidades soterradas. Precisa ler os cronistas prestando atenção nas contradições, nos momentos em que o que eles descrevem escapa às suas tentativas de explicação. Precisa questionar as interpretações posteriores que transformaram fluidez em rigidez, autonomia em subordinação, diferença em patologia.
Como escreveu Audre Lorde: "As ferramentas do mestre nunca vão desmantelar a casa do mestre."
A linguagem patriarcal, as categorias binárias de gênero, a historiografia machista, essas são as ferramentas do mestre. Para verdadeiramente compreender sociedades que existiam fora do patriarcado, precisamos de novas ferramentas, novas categorias, novas formas de pensar e descrever o humano.
Os povos indígenas brasileiros do século XVI nos oferecem um vislumbre de que outras formas de organização social são possíveis. Não idealizadas, não perfeitas, mas radicalmente diferentes. E se foram possíveis uma vez, podem ser possíveis novamente.
A tarefa do feminismo radical não é apenas conquistar igualdade dentro do sistema patriarcal. É destruir o próprio sistema e construir algo novo. E para fazer isso, precisamos primeiro entender que o sistema não é natural, não é eterno, não é a única forma de organizar a vida humana.
Os indígenas brasileiros sabiam disso. Os colonizadores europeus não conseguiram entender. E por 500 anos, a história oficial tem perpetuado essa incompreensão.
Está na hora de reescrever essa história. Não para romantizar o passado, mas para expandir nosso senso do possível. Para entender que o patriarcado teve começo e pode ter fim.
Por Amee Duran
Referências:
- Pero Magalhães Gandavo - "História da Província de Santa Cruz"
- Gabriel Soares de Souza - "Tratado Descritivo do Brasil em 1587"
- André Thévet - "Les singularités de la France Antartique"
- Claude d'Abeville - "História das Missões dos Padres Capuchinhos"
- Tânia Navarro Swain - "A Construção Imaginária da História dos Gêneros: O Brasil no Século XVI"
- Hans Staden - "Duas Viagens ao Brasil"
- Fernão Cardim - "Tratado da terra e da gente do Brasil"
- Andrea Dworkin - "A Causa Raiz" (do livro "Our Blood", 1975)
- Gerda Lerner - "A Criação do Patriarcado" (introdução)
- Audre Lorde - citação sobre "as ferramentas do mestre"

